A demanda hídrica dos data centers
Um artigo da University of California estimou, em abril de 2023, que o treinamento do modelo por trás da versão inicial do ChatGPT exigiu 185 mil galões de água. O texto também aponta que um data center de hiperescala pode consumir de 1 milhão a 5 milhões de galões por dia, volume comparável ao uso de uma cidade de 10 mil a 50 mil pessoas.
Segundo a reportagem, GPUs usadas em IA generativa geram mais calor do que chips e dispositivos de armazenamento tradicionalmente instalados em racks. A água utilizada no resfriamento precisa ter qualidade suficiente para não danificar equipamentos e tubulações; por isso, o uso de água potável pode competir com o abastecimento das comunidades.
Cerrillos: mobilização e mudança na proposta
Em Cerrillos, no sudoeste de Santiago, o Google buscava aprovar um projeto de data center de US$ 200 milhões. Pelas projeções da empresa citadas no texto, a instalação usaria 169 litros de água por segundo e retiraria água de um aquífero submetido a restrições de extração desde 2005.
Moradores criaram a MOSACAT para analisar informações sobre o empreendimento. Em um referendo realizado em dezembro de 2019, 49% dos votantes rejeitaram o projeto e 38% apoiaram seu avanço. Após reclamações do município e de integrantes da comunidade em 2020, o Google apresentou, em fevereiro de 2022, uma proposta para resfriar o data center exclusivamente com ar-condicionado, em vez de água.
Uruguai e Brasil aparecem na discussão
Em Canelones, no Uruguai, Daniel Pena, pesquisador da University of the Republic, recorreu à Justiça para obter do Ministério do Meio Ambiente detalhes sobre o uso previsto de água por um projeto do Google. Segundo os dados relatados, a área de 72 acres planejava usar 2 milhões de galões de água por dia em seus sistemas de resfriamento.
No Brasil, o texto afirma que há mais de 180 data centers. Nos arredores de Fortaleza, ao menos quatro grandes data centers buscavam se instalar em Caucaia. Um deles teria área equivalente a 12 campos de futebol, custo estimado em US$ 10 bilhões e seria desenvolvido para atender ao TikTok, embora tecnicamente pertencente a uma empresa local de energia eólica. A região enfrentou condições emergenciais de seca em 16 dos 21 anos entre 2003 e 2024.
Ponto de atenção para gestores
Como recomendação editorial, projetos de infraestrutura intensivos em computação devem tornar explícitas suas necessidades de resfriamento e de água desde as etapas de planejamento. A análise de disponibilidade local, das restrições de captação e do diálogo com comunidades pode ser tratada como parte da avaliação de viabilidade do empreendimento.
Os casos relatados também indicam valor em comunicar projeções de consumo em linguagem acessível. Em Cerrillos, a mobilização comunitária incluiu o exame de relatórios técnicos para entender os efeitos esperados do projeto.

